Reiterar

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Passei pelos mesmos lugares que passava como era de costume na ida aos nossos encontros sem nenhuma proporção de frequência. Mesmo que aquele caminho seja mais demorado e ruim de ônibus, a nostalgia daqueles prédios entrega-me algo confortante. As músicas que eu escutava ainda são as mesmas, poucas foram acrescentadas a minha lista. Olhando para aquela rua na saída da W3 Sul não pude conter um sorriso de canto ao lembrar do estado de cólera em que você se encontrava quando aquela caminhonete espirrou água na sua calça ao passar por uma poça. Para ser sincero, eu gostaria de ter dado uma risada aberta, mas não sei como os outros passageiros reagiriam. Tratei logo de pensar em outras coisas.

Chegamos, praticamente, ao mesmo tempo frente à academia que era o ponto de início da nossa caminhada que sempre foi feita sem pressa, a menos que começasse a chover. Fiquei desencantado ao ver que você tingiu seus cabelos. Gostava do pitoresco reluzir de seu cabelo natural, do volume harmônico dado aos fios que você deslizava entre os dedos e, agora, ele transformou-se nessa… coisa! *Suspiro* Bom, não tenho o que falar, afinal, não há um porquê e não mudará nada também. Pude somente proferir o primeiro clichê sobre mudança que me veio à memória. Das muitas coisas que ainda não compreendo sobre mim é o frisson que tenho ao você se aproximar, mesmo com o desencanto pelo cabelo.

Nossa mesa de costume estava ocupada, senti vontade de que aquelas pessoas se retirassem. Estava próximo de eu pedir o café quando você pediu cerveja. Espantei-me e, inexorável de toda vez que situação parecida faz-se presente, citei o fator, provado cientificamente, comum a alcoólatras em relação ao horário que começam a beber. Embora a sua fala possuísse um tom desdém, seus olhos não foram capazes de esconder o riso.

Foi de uma enorme complacência, ao seguir nosso cronograma, comprar aquele maço de Marlboro quando foi pedir a Dona Célia para guardar nossa mesa enquanto íamos aos fundos. Ainda bem que lembrou desse detalhe. Eu havia visto o maço de Dunhil Carlton na sua bolsa, perto daquele caderno Moleskine que compramos na promoção. Senti vontade de ler as últimas anotações ou esquadrinhar os sketches que faz ao transbordar-se de ansiedade. Lembrei-me de quando observava seus olhos direcionados à uma arte do McBess ou um doodle de algum artista underground. Ficava enternecido com o toque de sua face à minha enquanto olhávamos aquelas imagens. Alguns assuntos mantiveram a mesma vontade que tínhamos ao tratarmos, outros nem tanto, mas o que realmente esmaeceu meu ser naquele momento foi a mudança em seus cabelos. Ainda não conseguia aceitar.

Era de se notar as transformações que estavam a se expressar, mesmo que inconscientemente. Notava cada detalhe quando na pausa para uma tragada você disse que algo estava diferente em mim. Precisei de um autoexame rápido, pois penso que ainda estou sendo o mesmo, ainda mais com o reforço da nostalgia que aqueles prédios me trouxeram. Não pude discernir se você estava a brincar comigo ou se realmente estava a falar sério. Igual a você, eu prezo muito pela assiduidade. Deixarei você a fofocar com a Dona Célia. Infelizmente é meio de semana e alguns compromissos chamam. Ah! Gostei muito dessa armação nova, combinaria bastante com seu cabelo natural.

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