Filosofia de Botequim

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Hoje o som do despertador foi um tormento. Ontem havia ido dormir com a certeza de que acordaria assim, afinal, dias e mais dias dormindo tarde e acordando cedo justificam aqueles reflexos de um corpo cansado. O lençol da cama metamorfoseia sua essência e, agora sendo um ser consciente, segura-me à cama com uma força sobrenatural. Omito essa paranoia e levanto. Ligo a luz e os raios ferem minhas vistas até o lacrimejar. Por fim, acho que se concluiu o processo de despertar.

Não consegui assistir a última aula, estava tomado por um sono inebriante. Então, resolvi sair já que não haveria nenhuma produtividade. Gostaria de ter chamado a Érica e o Renan para almoçar comigo, mas, além de não ter os encontrado, eu estava duro. A vontade de chamá-los esvaeceu-se após eu lembrar disso. Fui almoçar sozinho, algo não tão comum nos últimos meses, mas esse pormenor não me retirava o sossego. Não sabia explicar a diferença daquele dia, era como se fosse o “você não toca em nada e nada toca em você” que o T. Durden fala sobre a insônia.

Descartei o cardápio, pedi o de sempre e, ao fazer o pedido, parece que me esqueci da fome. Eu pediria para cancelar se o rapaz do caixa não tivesse gritado o meu prato aos cozinheiros no fundo. Sentei-me próximo à janela. A luz do sol refletida nas paredes do restaurante ofuscava um pouco as vistas de quem almoçava alí. Gosto daquele restaurante porque é silencioso, no máximo pode escutar os cozinheiros e os administradores. Nas outras mesas as pessoas conversavam com discrição. Observava o local quando um sujeito de estatura média vestindo uma camiseta branca entrou e dirigiu-se ao caixa. Fez o seu pedido e depois sentou-se a umas três mesas da minha, pegando seu celular e passando a ler mensagens.

Parei de prestar atenção nisso quando minha falta de paciência bateu à porta de minha consciência. Eu nem estava com fome, mas esperar me dá agonia. Naquele instante fiquei querendo saber o porquê de não ter ido no self-service de lá. Alguém abriu uma garrafa de refrigerante próximo a mim e aquele barulho do gás escapando da garrafa, num átimo, secou-me a boca e a garganta enchendo-me de sede. Fui ao caixa pedir para que acrescentassem uma Coca-Cola.

Um dos garçons trouxe o meu almoço. Agradeci e, após ele ter se retirado, enchi um copo com a Coca e o bebi desesperadamente. Então, comecei a comer. Depois de ter matado a sede eu não ligava muito para o gosto da comida, estava boa, mas não era algo extraordinário. Enquanto mastigava, algumas preocupações (re)surgiam. Não dava atenção a meus pensamentos naquela manhã, mas estes que caíram no fluxo eram os que eu mais queria que se desfizessem. No instante em que a ansiedade começava a se mostrar, o sujeito de camiseta branca tocou em meu ombro com as pontas de seus finos dedos.

— Cara, desculpe, posso sentar aqui?

Eu o estranhei e então, sem aquela cara de desconfiança, permiti que sentasse. Naquele dia, praticamente, qualquer coisa era “tanto faz”.

— Aceita?  — Ofereci a Coca.

Passou-se alguns minutos de conversa e o almoço dele chegou. Eu estava para terminar de comer. Percebi que era um rapaz inteligente, as gírias não destruíam o seu vocabulário e eloquência. O garçom que trouxe a comida daquele cara atendia outra mesa que tinha um cliente puto com alguma coisa e gritava com ele.

— Ele pode até ser um leão, mas ao colocar aquele uniforme retorna ao camelo.

Eu o fitei, espantado com aquele comentário, e ele acabou percebendo.

— Gosta de Nietzsche?

— Não, porque ele não utiliza técnica filosófica  — Respondi. E você, leitor, se já leu essa frase em algum lugar entenderá o que quero dizer.

Pensei que seria mais um justiceiro social e acabei lembrando que havia notado uma inteligência nele, então deixei de lado essa suposição.

— Eu não conheço muito, só que esse trecho do Zaratustra me chama a atenção.

— E por que aquele garçom não é a criança?

— Tu acha mêmo? Com aquela cara que ele fez? Ele vai descontar tudo isso ao sair daqui.

— Mas você não vai me dizer que o dragão é o patrão que o obriga a isso não, né?

— Não  — ele sorriu  — Já trabalhei em um local parecido. Sei que faz parte, apesar de que… é uma boa analogia.

Conversamos sobre filosofia. Nossas experiências comuns e visões de mundo evidenciaram uma criança a caminho do Übermensch. Apesar de eu não gostar desse papo de Nietzsche, aquela conversa deixou a gente naquele inexplicável estado depois de compartilhar conhecimentos e adquirir novas visões de um assunto. Todas as assimilações, dúvidas e respostas nos deixou “leves” ao sair do restaurante, mas o cara discutiu no estacionamento por alguma besteira e acabou xingando a mãe de alguém, e eu fiquei para explodir de raiva ao saber que falavam sobre minha vida no grupo do Whatsapp, querendo descontar fazendo comentários maldosos sobre todos alí.

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